O valor, a importância, das coisas, a satisfação de chegares ali, que não foi igualada pela chegada a outros lugares e a outros tempos, como diria de muitas outras experiências...
Mas o desafio de seres quem és, de memória do que foste e que conjecturaste ou sonhaste ser, mais poderosa do que os meros factos, do que o acontecer, um pensador, um escritor que verbaliza e comunica, um autor, que é inigualável, uma voz, um poeta.
Descobrires que tens essa força e que podes usá-la, até para além do que é suposto, do que nunca foi feito, pode ter sido o primeiro passo para a tua autodeterminação, um estádio de desenvolvimento pessoal e mental numa relação de maior liberdade e de visão construtiva do mundo.
Há chegadas que ficam.
Não porque o lugar fosse extraordinário, nem porque o tempo tivesse qualquer brilho especial, mas porque, naquele instante, algo em ti se alinhou com uma verdade que não sabias que procuravas.
O valor dessas chegadas não se mede pelo GPS, nem pelo calendário, mas pela vibração íntima que deixaram, uma vibração que não foi igualada por outras viagens, por outros dias, por outras conquistas. Assim acontece com tudo o que importa: não é o facto que pesa, é a forma como o habitaste.
E talvez tenha sido aí que começou o verdadeiro desafio de seres quem és. Não apenas o que foste, nem apenas o que sonhaste ser, mas essa interseção viva entre memória e possibilidade, entre o que te aconteceu e o que ousaste imaginar.
Essa zona interior, mais poderosa do que os meros factos, mais decisiva do que o simples acontecer, é o lugar onde nasce a tua voz. A voz do pensador, do escritor que verbaliza e comunica, do autor que se assume, da voz que se arrisca, do poeta que te habita mesmo quando não escreves. Nada, nem ninguém te deve impedir de usar essa voz, de questionar, de dizer diferente, de desenhar o que nunca viste, de compor o que nunca ouviste, de dançar o que o corpo inventa, de correr como quem abre caminho, de jogar à bola como quem celebra o instante, de assobiar como quem afirma a própria respiração.
Tudo o que faças pode ser espetáculo, mensagem ou expressão, desde que traga a tua marca, em nome próprio. Essa é a arte de seres tu. E tens todo o direito a ela.
E foi quando descobriste essa força, que não sabias que tinhas, essa força que te permitiu ir para além do que era suposto, para além do que alguma vez tinha sido feito, que deste o primeiro passo da tua autodeterminação.
Um momento inaugural, quase secreto, em que começaste a viver com mais liberdade e a construir a tua própria maneira de ver o mundo. Não como quem repete, mas como quem cria. Não como quem cumpre, mas como quem escolhe. Não como quem se adapta, mas como quem se afirma. Porque a liberdade é esse gesto teu e a tua identidade é a tua obra. E tu, com tudo o que foste, com tudo o que sonhaste, com tudo o que ousaste ultrapassar, és a tua própria criação.
A arte de seres tu continua.
E continuará enquanto houver em ti essa força que descobriste um dia e que, desde então, nunca mais te abandonou.
Carlos Ricardo Soares